Os ladrões de cisne, de Elizabeth Kostova

2 08 2011


Tinha tudo para funcionar: temos uma trama central para conduzir a história – por quê o pintor genial aponta uma faca para uma famosa pintura na National Gallery? – , temos um nobre psiquiatra que tenta ajudar o artista, a esposa do pintor, sua amante e sua obsessão por uma mulher misteriosa que pode – ou não – ser também sua amante. Temos várias relações que ecoam umas nas outras através do tempo e espaço. Temos cartas misteriosas, escritas em francês há mais de um século. Temos reflexões sobre arte versus amadorismo,  velhice versus juventude e  amor versus  obsessão. Tinha tudo para funcionar. No entanto, não funcionou. Motivos?

Kostova começa com uma premissa fascinante que intriga o leitor: que motivos levaram Robert Oliver a atacar com uma faca a pintura de Leda e o cisne? Oliver não é de falar muito, e seu psiquiatra Andrew Marlow é quem fica encarregado emendar os pedaços de pistas e trazer à tona os segredos da mente de Oliver. A maior pista é a pintura recorrente que Oliver faz, a face de uma mulher, com uma certa sensibilidade na expressão, uma face pela qual qualquer um se apaixonaria pelo menos um pouquinho – e ele pinta a mesma face inúmeras vezes.

Mas Robert Oliver não está apenas um pouquinho apaixonado pela tal mulher que ele mesmo representa em sua pintura, e quando ele não está pintando o retrato desta misteriosa face, está lendo um punhado de cartas velhas escritas em francês. Ele permite ao psiquiatra tirar cópias das cartas, mas Marlow não entende francês e ele envia-as para tradução e vai recebendo as transcrições aos poucos. Assim Kostova criou o gargalo através do qual as informações só poderiam acabar vazando. Está aí o motivo e uma grande fraqueza deste livro, que o torna tão estupidamente longo.

Se Oliver falasse, entenderíamos por que ele fez o que fez, fim da história. Se Marlow pudesse ler as cartas em francês, descobriríamos quem era a mulher misteriosa. Então Kostova torna a informação elusiva, e nos prende por mais de 500 páginas de. . . Tédio é a palavra que eu quero? Não, não é essa a palavra, o livro não é tão ruim. Mas é longo, e honestamente, sem muito retorno literário.

Um exemplo: uma vez que Oliver é entregue aos seus cuidados em um hospital psiquiátrico, Marlow vai ver a Leda, quadro que foi atacado. Isso leva mais de cem páginas para acontecer. Enquanto no museu, Marlow vê uma mulher prendendo jovens – e leva mais cem páginas para descobrir que ela é ex-amante de Oliver. É quase como uma piada de Woody Allen sobre estar em tratamento por anos, porque tudo se move tão lentamente que o leitor se sente internado numa clínica psiquiátrica riscando pauzinhos na parede para passar o tempo (nesse caso, contando páginas para passar o tempo).

Uma vez que Oliver não fala nada, Marlow resolve ir até a Carolina do Norte para falar com sua ex-esposa  para aprender o que puder sobre o paciente. Supostamente relutante em falar sobre seu ex-marido, Kate Oliver narra um grande número de capítulos, em que aprendemos muito mais sobre ela e muito menos pouco sobre Robert.  Então, basicamente, temos uma premissa interessante, que é mais ou menos abandonada para dar lugar a, literalmente, centenas de páginas em favor de monólogos estendidos. Não que esses monólogos sejam terríveis, mas eles não conseguem avançar o enredo do romance, e eles não conseguem criar vozes distintas. A narração genérica de Marlow do romance soa exatamente como quando Kate está falando sobre seu marido, que soa exatamente como narrativa escrita de Maria, que soa exatamente como as seqüências de terceira pessoa ambientada no século XIX. O que significa dizer claramente que todos os personagens são idênticos.

Francamente, o livro sofre pela incapacidade de Elizabeth Kostova de criar personagens interessantes e distintos. Todo mundo parece o mesmo quando falam, escrevem e agem, e muito poucos deles são interessantes também. É claro, somos informados de que eles são interessantes na narrativa, numa tentativa frustrada de fazer o leitor entender que ”este personagem é enigmático e surpreendentemente interessante, continue lendo as próximas 500 páginas”.

Bem, não vale à pena ler. Não fez jus à sua premissa, não conseguiu criar personagens cativantes, a trama fracassou na maioria dos níveis. Existem idéias potencialmente interessantes sobre mulheres jovens se apaixonando por homens de idade, a dificuldade de viver uma vida de artista em um ambiente doméstico, os costumes geniosos de artistas etc. Mas, novamente, eles são uma espécie de farinha do mesmo saco e a prova disso é que, para descrever e convencer o leitor do blog de que o livro é ruim, tive que escrever uma resenha proporcionalmente grande ao próprio livro.

[resenha feita por Geisson Homrich]

Título original: The Swan Thieves
Editora: Intrínseca
páginas: 536

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2 responses

22 10 2011
Adriana Karnal

não vou ler, a resenha li avidamente 😉

21 02 2014
Julia

Nossa, o livro é mto bom, provavelmente vc é que não tenha entendido o contexto do mesmo 😉
Não é um livro pra todo!

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