Desastre, de S. G. Browne

10 06 2011

“O amor não é uma escolha.
É um desastre”.

É com esta consideração que começamos a ler uma divertida e sombria história sobre o amor verdadeiro e a autodescoberta, narrada em primeira pessoa por um protagonista que não é de todo humano. Fado, membro de um panteão extenso de entidades cósmicas que constroem (e destroem) o equilíbrio do mundo, controlados por um Ser Superior que você conhece pelo nome de Deus (mas que nesta história prefere ser chamado de Jerry), nos mostra um mundo baseado em acontecimentos pré-estabelecidos, trazendo-nos desde o início uma  necessária distinção entre Fado e Destino. Destino é regido por sucesso, por realizações. Fado é regido pelo fracasso, pelo esquecimento. Há uma diferença sutil entre estar destinado a algo ou estar fadado a algo. E, inclusive, Destino aqui é uma personagem sexy e envolvente que vive perseguindo Fado e tentando lhe roubar seus seres humanos.

Fado, cujo pseudônimo humano é Fabio, tem como missão certificar-se de que as pessoas não tomem decisões ou façam ações que possam desviá-las de seu rumo pré-determinado. Sua maior rival, Destino, é uma ninfomaníaca ruiva que ajuda a pequena porcentagem de seres humanos com potencial para o sucesso. Nós nos encaixamos em um ou outro caminho: destinados ou fadados. Ele odeia seu próprio trabalho, e inveja o trabalho de Destino. É fácil entender a razão: ele passa a eternidade convivendo com molestadores de crianças, viciados e mais de cinco bilhões e meio de fracassados, enquando ela acompanha astros e gênios, que podem até cometer erros, mas que possuem um Oscar ou um Nobel da Paz para compensá-los.

S.G.Browne cria um espantoso mundo imaginário e metafísico, onde os imortais, incluindo a Morte (que atende pelo nome de Dennis), os Sete Pecados e as Sete Virtudes, além de entidades como Humor, Fofoca, Sorte e Karma, ganham existência carnal em uma ”carcaça humana” fazendo com que as ordens celestiais de Jerry funcionem como devem funcionar. E as coisas continuariam para sempre seguindo seu caminho se não fosse por um fato inusitado: Fado se apaixona por uma humana.

Cada uma das entidades-personagem possui suas próprias particularidades: Vaidade, por exemplo, é hipocondríaca. Isso nos garante episódios muito cômicos durante a leitura, e podemos ter o prazer de passar uma noite bebendo num bar ao lado de Karma e até mesmo passar no escritório de Jerry, O-Todo-Poderoso, para tomar um cafezinho.

Naturalmente, a obsessão que Fado desenvolve por Sara, uma moradora de Manhattan, torna difícil manter o equilíbrio de sua função e quebra a regra número um: não se envolver com humanos. Quando se torna claro que Destino reservou uma grande parte de sua jornada para Sara, fica ainda mais complicado para ele decidir se o verdadeiro amor vale mais à pena do que sua imortalidade.

O autor desenvolve um mundo imaginativo e fantástico misturando o sagrado com o mundano, e se ele continuar escrevendo histórias nesta mesma linha de ideias abstratas assumindo formas humanas, tenho certeza de que vai ir bem longe no mundo literário. Talvez, para S.G.Browne, seja apenas seu Destino.

[resenha feita por Geisson Homrich]

Título Original: Fated
Tradução: Inês Pimentel
Editora: LeYa
Páginas: 272

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