avaliação da produção textual: muito além do certo e errado

6 06 2011

ANTUNES, Irandé. Avaliação da produção textual no ensino médio. In: BUNZEN, Clécio; MENDONÇA, Márcia [orgs]. Português no Ensino Médio e Formação do Professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

A avaliação da produção textual é uma tarefa que incita preparo e cuidado por parte do professor para que fuja do paradigma de avaliar apenas apontando o certo e o errado. Avaliar é um processo que requer a abordagem de concepções, objetivos e procedimentos indispensáveis para uma reflexão crítica e uma apreciação do texto que o aluno produz na escola, ficando a cargo do professor a responsabilidade pela escolha do método e dos valores adequados que atribuirá à produção.

No excerto Avaliação da Produção textual no ensino médio, a autora Irandé Antunes defende a apreciação do texto do aluno como processo de construção do saber e da evolução das habilidades de produção textual, processo que deve permitir a reflexão linguística também por parte do aluno em vez de ele receber apenas uma correção delimitada por conceitos de certo e errado. Irandé Antunes é Doutora em Linguística pela Universidade Clássica de Lisboa e atua como docente na Universidade Estadual do Ceará. Publicou, em sua carreira, outras obras da mesma temática, como Questões da coesão do texto: uma análise em editoriais jornalísticos (1996), Aula de português: encontro e interação (2003) e também Língua, texto e ensino – outra escola possível (2009), além de inúmeros artigos em revistas especializadas. Como professora pesquisadora, exerce ampla atividade de divulgação científica em torno de questões linguísticas e de seu ensino.

A autora afirma, no seu discurso, que o professor tem tomado para si toda a responsabilidade na avaliação da produção textual, enquanto o aluno participa apenas como mero espectador de sua própria escrita. Ele entrega o texto e ‘sai de cena’ para retornar apenas no final, conferindo qual nota lhe foi atribuída, sem saber onde estão e quais são seus principais equívocos linguísticos nesse processo de escrita. Porém quem aprende não pode ficar ausente, não pode ser um espectador passivo. Isso ressalta a importância da autoavaliação, pois ninguém pode ser afastado de seu próprio processo de aprendizagem. O aluno deve ser capaz de entender os processos linguísticos que ele mesmo usou na construção do texto e ser capaz de julgar a adequação de seus desempenhos. O professor, como avaliador, deve então completar o olhar do aluno sobre a produção, fazendo transparecer o que o aluno não percebeu, propor novos meios de apresentar uma ideia, e até mesmo fazer ajustes ao contexto. Assim, ajuda o aluno a compreender o processo linguístico de produção de texto, ajuda-o a desenvolver suas capacidades comunicativas escritas e foge do paradigma de apontar erros sem explorá-los.

Falta na escola um tempo para a reflexão, o incentivo, o incremento e o estímulo da autoavaliação e da avaliação coletiva, fazendo com que os alunos revejam suas produções e, muito antes do professor, apontem eles próprios as imprecisões de coesão e coerência, apreciando o texto que produziram e ajustando-o de acordo com o contexto da proposta. O erro tomou a dimensão de maior importância no âmbito da escola e atropelou esta avaliação dinâmica. Com isso, o aluno perde a oportunidade de perceber o que já foi aprendido, ou seja, as competências que já adquiriu no processo de produção.

A proposta de Irandé Antunes sobre o método de avaliação passa por questões bem pontuais. Ela diz que o processo de avaliar deve converter-se em um momento de reflexão e análise, de adequação mediante sugestões e alternativas, sem a fixação no erro. Dessa forma afasta o foco da correção para evidenciar a análise linguística em suas múltiplas possibilidades. A avaliação passa, então, a ser uma oportunidade de aprendizagem, descoberta e reflexão não sobre o que é certo e errado, mas sim sobre a melhor maneira de se dizer ou apresentar uma ideia ou pensamento. Os parâmetros a serem avaliados em um texto devem se manter entre: elementos linguísticos, elementos de textualização e elementos de situação em que o texto ocorre (ou ‘estatuto pragmático do texto’, como afirma a autora). Para o professor, uma avaliação dinamizada poderia ser vista como uma avaliação da totalidade, uma avaliação equilibrada, consistente, responsável e significativa. Para o aluno, representariam o crescimento em direção à autonomia, o entendimento de que as restrições da língua culta são convenções sociais e a compreensão dos gêneros textuais como modelos sociais de escrita (flexíveis) que podem auxiliar no desenvolvimento das competências.

A proposta de Irandé Antunes é significativa a partir do momento em que tomamos a produção textual como construção do saber, e não apenas como avaliação. O professor não pode apenas se prender ao erro, pois o compromisso maior é ensinar, facilitar e promover a aprendizagem que o aluno empreende, estimulando sua vontade de aprender. As propostas de Avaliação da produção textual no ensino médio são muito importantes para a compreensão, por parte do professor, de tais competências, sendo sua leitura de extrema recomendação a profissionais que buscam não apenas ensinar a língua, mas desenvolver a reflexão linguística nos alunos e propor, assim, o desenvolvimento de suas capacidades comunicativas.

[publicado originalmente aqui.  É permitida a reprodução desde que seja mantida a autoria]

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