A revolução dos bichos, de George Orwell

25 05 2011

Falar sobre um texto clássico é sempre complicado, por mais propriedade que se tenha sobre o assunto.  Ele já foi resenhado por inúmeras pessoas, e o próprio posfácio do livro traz resenhas. Confesso que conhecia muito pouco sobre George Orwell, mas a leitura de A revolução dos bichos me fez ficar curioso por algo mais.

A revolução dos bichos conta a história dos animais de uma granja da Inglaterra, que resolvem voltar-se contra os seres humanos em busca de condições melhores de sobrevivência. Trata-se de uma fábula: obviamente sabemos que animais não são racionais. Porém, George Orwell cria uma narrativa tão bem estruturada para contar a história de Major, o porco revolucionário, e seus seguidores Bola-de-Neve e Napoleão (que mais tarde acabam transfigurando os ideais de Major), que o leitor se insere na metáfora e acaba levantando questões inimagináveis. Quem busca ir além, entende a verdadeira crítica social do livro, que reflete as políticas da União Soviética e faz um paralelo entre seus personagens e os principais nomes da Revolução Russa.

A história se passa em uma fazenda chamada de Granja do Solar, nas redondezas de Willingdon, Inglaterra. O dono das terras e dos animais é o Sr. Jones, um ser humano. O ponto de partida para o início da narrativa é quando Major, um porco, reúne todos os animais para contar a eles sobre um sonho que teve, onde todos os animais eram auto-suficientes e com direitos iguais. O porco Major faz com que os animais desenvolvam a vontade de se voltar contra o Sr. Jones e, assim, dominar a fazenda e fazer valer seus direitos. Cansados de viver apenas com um punhado de comida e tendo que produzir tudo para a comercialização e lucro dos seres humanos, eles dão início ao plano de conquista da granja.

Eles criam os Sete Mandamentos, um conjunto de regras que delimita as atitudes que os animais devem ter a partir de então. São eles:

– qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo;
-o que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo;
-nenhum animal usará roupa;
-nenhum animal dormirá em cama;
-nenhum animal beberá álcool;
-nenhum animal matará outro animal;
-todos os animais são iguais.

 A conquista é iniciada, mas infelizmente Major, o porco idealizador, morre. Seguem no comando então outro porco, de igual inteligência: Bola-de-Neve. Ele fica responsável por dar continuidade aos ideais de Major. Outro porco, porém, sente-se atraído pelo poder e sabota os planos de Bola-de-Neve, modificando toda a filosofia para um auto-crescimento. Napoleão, o sabotador, conquista a granja e começa a marginalizar os animais, considerando-os animais inferiores e sem direitos, atropelando todos os sete mandamentos. Ele recebe a ajuda de Garganta, outro porco, que se encarrega de colocar na cabeça dos demais animais que tudo o que Napoleão fazia, por mais ditatorial que fosse, era para o bem deles. Os porcos, obviamente, tinham privilégios, pois na concepção de Napoleão, eram superiores. Aos poucos ele vai dominando a todos, assume a granja e passa a morar na casa de Sr. Jones, confraternizando à mesa com os humanos como se fosse um deles. Já não se sabia mais quem era homem, quem era porco.

A revolução dos bichos mostra uma crítica atemporal à sociedade, pois como bem sabemos existem muitos líderes propagando ditadura como ‘’bem comum’’. O texto de Orwell é leve, curto, gostoso de se ler e muito, muito engraçado. As doses de humor estão presentes em toda a narrativa, o que o torna uma leitura agradável mesmo sem os olhos críticos para as questões que transcendem o texto. Mostra claramente o que acontece quando o poder é usado para beneficiar apenas um grupo de indivíduos, e é atemporal justamente porque, ainda hoje, existem ‘’porcos’’ andando livremente pelos cenários políticos do mundo.

resenha feita por Geisson Homrich

Título: A revolução dos bichos
Título original: Animal farm: a fairy story
Tradução: Heitor Aquino Ferreira
Editora: Companhia das Letras
páginas: 112 (+ posfácio)

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2 responses

15 06 2011
Pedro Witchs

Parabéns pela resenha! Gosto muito desse livro, o li quando tinha uns 12, 13 anos, nas férias de verão na praia. Minha iniciativa em lê-lo se deu porque sempre fui um militante pelas causas animais. A propósito, preciso fazer uma correção: a ciência já reconhece a racionalidade em várias espécies animais não-humanas… mas isso não vem ao caso. O fato é que ler A revolução dos bichos fez com que eu acreditasse que “até mesmo o maior revolucionário será um conservador depois da revolução” (não lembro autor, nem onde li, rs). Sobre o autor, adoro saber que ele, com todo esse senso crítico, inspirou, com o seu livro 1984, um programa de televisão considerado, por “intelectuais”, um dos mais fúteis na última década, o Big Brother. Hehehe, não que eu goste de BBB, mas também acho engraçado como as pessoas criticam sem nem ter ideia da dimensão do negócio. Enfim, parabéns pelo blog!

15 06 2011
poltronaliteraria

Pedro,
Agradeço muito pelo comentário construtivo que você fez, com certeza contribuições e reconhecimentos como o teu motivam para novas resenhas e produções, ainda mais quando são comentários de qualidade que mostram a atenção que o leitor deu ao blog e ao texto em questão! Muito obrigado, mesmo!
~Geisson

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