“acredito que o livro deva ser sincero em relação ao conteúdo”, diz Samir M. de Machado

23 05 2011

“Em último caso, ele precisa se destacar na prateleira de uma livraria, precisa dizer pro leitor ‘oi, estou aqui e sou mais interessante que o livro do lado, me pegue’.”

Esta é a opinião de Samir Machado de Machado, escritor e editor, um dos idealizadores da Não Editora, a editora que tem como lema “Queremos que o nosso público não tenha vergonha de assumir que julga o livro pela capa”. Tivemos a honra de ter uma conversa a respeito do seu mais recente lançamento Ficção de Polpa – Crime!, uma coletânea de contos que já chega à seu quarto volume. Entre idas e vindas sobre a coletânea e sobre a proposta da editora, Samir nos conta um pouco do que se passa na cabeça de um bibliófilo. Confira a entrevista na íntegra!


Segundo o próprio, Samir Machado de Machado nasceu em Porto Alegre, em 1981. Trabalha com design editorial e gosta de escrever. Publicou algumas coisas aqui e ali. Ganhou uns prêmios aqui e ali, do qual muito se orgulha mas fica constrangido em falar de si mesmo. Desde 2007, atua como editor da Não Editora, criada com alguns amigos, e do qual muito se orgulha por ter lançado gente bacana que escreve muito bem. É visto com frequência caminhando distraído e apressado pelas ruas do bairro Bom Fim.
A respeito de seu mais recente lançamento, a coletânea Ficção de Polpa – Crime!, quarto volume da coleção, ele nos contou o seguinte:

Como nasceu a ideia da coleção Ficção de Polpa?
Nasceu de uma junção de fatores. Recém saído de uma oficina de criação literária (a do Prof. Assis Brasil), eu queria fazer algo pra promover a produção textual tanto minha quanto de conhecidos que eu sabia escrever bem. Para isso, a melhor forma parecia ser a de uma coletânea. Ao mesmo tempo, sendo todo mundo desconhecido, precisávamos de um tema que tornasse a proposta atrativa. Somado a isso, eu sempre gostei de literatura de gênero, e a idéia de fazer algo usando os pulps como eixo temático me pareceu bacana, porque era algo que não se vê muito aqui no Rio Grande do Sul.

Qual foi a motivação para este título?
Era pra ser um título provisório, me ocorreu que seria engraçado traduzir “pulp fiction” literalmente, como os portugueses gostam de fazer. Como não consegui nenhum título melhor, acabou ficando esse mesmo. Atualmente, já vi professores da Letras referindo-se à literatura pulp como “literatura de polpa”, então se tivermos feito nossa parte para que ao menos se tenha encontrado uma versão abrasileirada pro termo, já fico feliz.

Qual o ponto de partida para a seleção dos contos?
Em primeiro, qualidade, em segundo, adequação ao tema. Bem nessa ordem. Alguns contos às vezes fogem um pouco da proposta (ou a expandem, dependendo do ponto de vista), mas são tão bons (ao menos aos meus olhos) que não imagino deixá-los de fora.

As narrativas das mais diversas temáticas eliminam o conforto, devido às situações extraordinárias e surpreendentes que se desenrolam. Intenção ou acaso?
Consequência. Literatura de conforto, só a de auto-ajuda, que nem bem literatura é. Em última instância, arte é feita para nos fazer questionar aquilo que temos como estabelecido. Para vermos o que há além da nossa zona de conforto, é preciso duvidar das nossas certezas. Se você pegar, por exemplo, o conto do Rafael Jacobsen no primeiro volume de Ficção de Polpa, uma história ao estilo Guerra dos Mundos, e pensar que ele coloca os personagens humanos na mesma posição que animais num matadouro, pode-se fazer uma leitura bastante “vegana” daquela proposta. No conto do Octávio Aragão publicado em Ficção de Polpa – Crime!, por exemplo, ele subverte elementos estabelecidos de um conhecido personagem da literatura vitoriana, tirando-o do papel de vilão e colocando-o como vítima de paranoias científicas e religiosas da época. Então, não é a intenção específica eliminar o elemento “reconfortante” da trama. O tipo de literatura que buscamos, com a coleção, por natureza, não busca o confortar.

Além de Ficção de Polpa volume 1, Ficção de Polpa volume 2, Ficção de Polpa volume 3 e Ficção de Polpa – Crime!, outros volumes serão lançados para deleite dos leitores?
A continuidade da coleção depende sempre do retorno financeiro do último volume. São livros divertidos de organizar, divertidos de lerem, não ganhei na loteria e imprimir um livro, por mais acessível que seja hoje em dia, não é coisa barata, é preciso que vendam bem para continuarem.

Você aprecia as [boas] capas de livros e levou esta ideia para a Não Editora, fazendo com que o leitor ”não tenha medo de confessar que julga o livro pela capa”. De onde vem essa paixão pelas capas de livros e como funciona a produção das capas na editora?
Sou bibliófilo. Quero que os livros bons tenham sua qualidade refletida na capa, e se o livro for ruim, que pelo menos enfeite bem uma prateleira. Já a produção de uma capa é um processo variado, dependendo da natureza de cada projeto, da visão editorial sobre ele, e do público potencial. Na Não Editora, acredito que o livro deva ser sincero em relação ao conteúdo, no sentido de que tento passar um pouco do “clima” do livro pela capa. Em último caso, ele precisa se destacar na prateleira de uma livraria, precisa dizer pro leitor “oi, estou aqui e sou mais interessante que o livro do lado, me pegue”. Não é a capa que vai vender o livro, claro. Ela só inícia um processo.

Mais informações sobre a Não Editora e suas publicações podem ser conferidas aqui, e sobre Samir, aqui.

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